não há sons mais belos que aqueles que só a Natureza e o Silêncio conseguem conjurar.
já experimentaste sentar-te lá fora e escutar?
ouvir Nada e ouvir Tudo.
nada te escapa.
o cantar alegre dos pássaros,
o vento a roçar-se nas folhas,
o vento a soprar,
o ladrar dos cães,
a chuva a cair...
lá longe ouço também os sons da cidade.
motas, carros, ambulâncias,
motores, afinal.
as pessoas gritam, cantam, berram, choram...
exaltadas, felizes, desesperadas, tristes.
pois, lá fora ouves tudo.
e a Natureza furiosa recomeça.
um trovão forte ribomba e intimida-me.
a chuva começa a cair torrencialmente, fazendo barulho.
é bonito de se ver, mas ainda mais bonito de se ouvir.
o trovejar, o chover.
todos começam a procurar um abrigo.
ouve-se o passo apressado das pessoas,
os cães cessam o seu ladrar,
e até ouvimos o mais pequeno dos pássaros bater as asas para se esconder, seguro.
o ribombar dos trovões é belo,
não há som igual ao da chuva a cair.
não há sons iguais.
e, subitamente, Nada.
nada se ouve.
cessou o trovejar e o chover.
veio o Silêncio.
e o Silêncio é de ouro...
banhado nesta tranquilidade imensa, fecho os olhos.
é tudo tão calmo, tão tranquilo...
desejo o Silêncio intensa e eternamente.
de olhos fechados adormeço.
e acordo com a Natureza.
o sol já brilha,
os cães ladram outra vez,
os pássaros cantam outra vez em tom alegre.
as pessoas andam lá fora outra vez.
os carros percorrem a cidade.
e eu cá fora, ouço tudo.
cá fora ouve-se Tudo...cá fora ouve-se Nada.
Wednesday, May 03, 2006
Wednesday, April 26, 2006
louco
dizem que ser louco é errado.
dizem que ser louco faz mal.
mas digo eu:
o que é a vida se não formos loucos?
de que serve se a loucura não se apoderar de nós?
que somos nós de resto se loucos não formos?
(nem que seja só um pouco, às vezes)
digo eu, àqueles que sofrem, aos sãos,
a vida é para ser vivida.
as loucuras fazem bem.
se loucos não fôssemos, seríamos não mais
que uma marioneta,
destinado a não mais que procriar para sobreviver e continuar...
mas não!
não, a vida deve ser tomada pela loucura!
devemos viver, devemos ser loucos.
ou a vida não será mais que um momento
passado como tantos outros.
Melancólico
Aborrecido...
e a sanidade tomará conta de nós até ao fim.
e nós não seríamos mais que uma marioneta obedecendo sem saber bem a quê...
não pode ser!
a loucura não é mal nenhum.
a loucura deveria comandar-nos,
não aquela sanidade correcta e aborrecida.
(a vida não é um momento
a vida é uma dádiva)
a vida pode ser vivida com loucura
a vida deve ser aproveitada.
porque a vida não é um momento.
e nós podemos ser sempre melhores que aquilo que fomos e somos.
dizem que ser louco faz mal.
mas digo eu:
o que é a vida se não formos loucos?
de que serve se a loucura não se apoderar de nós?
que somos nós de resto se loucos não formos?
(nem que seja só um pouco, às vezes)
digo eu, àqueles que sofrem, aos sãos,
a vida é para ser vivida.
as loucuras fazem bem.
se loucos não fôssemos, seríamos não mais
que uma marioneta,
destinado a não mais que procriar para sobreviver e continuar...
mas não!
não, a vida deve ser tomada pela loucura!
devemos viver, devemos ser loucos.
ou a vida não será mais que um momento
passado como tantos outros.
Melancólico
Aborrecido...
e a sanidade tomará conta de nós até ao fim.
e nós não seríamos mais que uma marioneta obedecendo sem saber bem a quê...
não pode ser!
a loucura não é mal nenhum.
a loucura deveria comandar-nos,
não aquela sanidade correcta e aborrecida.
(a vida não é um momento
a vida é uma dádiva)
a vida pode ser vivida com loucura
a vida deve ser aproveitada.
porque a vida não é um momento.
e nós podemos ser sempre melhores que aquilo que fomos e somos.
acho que a palidez amarelada da cidade tomou conta de mim. inquieta-me pensar naquelas florestas de betão e aqueles jardins cinzentões. sinto um aperto enorme no meu peito cada vez que saio do paraíso que é a minha santa terra para ir para aquele inferno de rostos indefinidos em que tudo é cinzento e amarelado. enoja-me e entristece-me tudo igual, tudo tão monocromático. odeio cá vir. que saudades tenho eu do meu jardim, da minha janela que aberta me invade com todo aquele verde e aquele ar puro e fresco...não há mais belo que um botão de flor desabrochar na flor mais bela do jardim, não há como colher o fruto fresco que nasce das árvores plantadas por nós...não há como estar em casa, perto de tudo o que quero, tudo o que gosto e que amo...
entristece-me todo o cinzento betão citadino, irrita-me aquele fumo que me corta o respirar, metem-me medo tantos rostos tão iguais, tão indiferentes a tudo, pesa-me a miséria de muitos...odeio a cidade, odeio aquele buraco, aquele inferno. odeio!
só me consola o verde de casa, o ar puro da terra, o céu azul de dia e profundo de noite, com estrelas como nunca vi...a tua estrela também, pois essa nunca desaparecerá, nunca mesmo!
não quero sair daqui, não quero. amo a minha terra, amo este verde, este céu, este jardim, este paraíso.
entristece-me todo o cinzento betão citadino, irrita-me aquele fumo que me corta o respirar, metem-me medo tantos rostos tão iguais, tão indiferentes a tudo, pesa-me a miséria de muitos...odeio a cidade, odeio aquele buraco, aquele inferno. odeio!
só me consola o verde de casa, o ar puro da terra, o céu azul de dia e profundo de noite, com estrelas como nunca vi...a tua estrela também, pois essa nunca desaparecerá, nunca mesmo!
não quero sair daqui, não quero. amo a minha terra, amo este verde, este céu, este jardim, este paraíso.
Tuesday, April 25, 2006
ainda hoje de manhã me parecia ontem.
mas afinal era sono...
hoje de noite parece-me o amanhã e o ontem já vai lá atrás...
onde estou? melhor, quando estou?
ontem, hoje, amanhã...
tudo num ápice, depressa e rápido passa...
tanto que já se passou,
tanto que se passa
e tanto que ainda se passará!
o ontem foi um sonho,
o hoje é real,
o amanhã uma visão.
afinal, quando estou? se
ainda hoje de manha me parecia ontem
e hoje de noite parece-me amanhã e o ontem já vai lá atrás?
mas afinal era sono...
hoje de noite parece-me o amanhã e o ontem já vai lá atrás...
onde estou? melhor, quando estou?
ontem, hoje, amanhã...
tudo num ápice, depressa e rápido passa...
tanto que já se passou,
tanto que se passa
e tanto que ainda se passará!
o ontem foi um sonho,
o hoje é real,
o amanhã uma visão.
afinal, quando estou? se
ainda hoje de manha me parecia ontem
e hoje de noite parece-me amanhã e o ontem já vai lá atrás?
sou doido
sou louco.
deixem-me sê-lo,
deixem-me em paz,
não me digam nada.
sou louco, eu sei.
e digo-o a todos.
vergonha? medo?
porquê? para quê? de quê?
disso não tenho.
sou louco
sou doido.
ouçam todos e ouçam bem.
pois eu sou feliz assim, aproveito a vida.
tristes aqueles tristes que pensam ser felizes.
tristes aqueles sãos que não se deixam invadir pela loucura.
talvez assim vivessem realmente.
tristes aqueles são que vivem uma vida sã.
pudera eles saberem o que é a loucura!
assim saberiam o que é realmente viver...
sou doido,
sou louco.
ouçam todos, ouçam bem.
eu vivo!
sou louco.
deixem-me sê-lo,
deixem-me em paz,
não me digam nada.
sou louco, eu sei.
e digo-o a todos.
vergonha? medo?
porquê? para quê? de quê?
disso não tenho.
sou louco
sou doido.
ouçam todos e ouçam bem.
pois eu sou feliz assim, aproveito a vida.
tristes aqueles tristes que pensam ser felizes.
tristes aqueles sãos que não se deixam invadir pela loucura.
talvez assim vivessem realmente.
tristes aqueles são que vivem uma vida sã.
pudera eles saberem o que é a loucura!
assim saberiam o que é realmente viver...
sou doido,
sou louco.
ouçam todos, ouçam bem.
eu vivo!
Sunday, April 23, 2006
Thursday, April 06, 2006
TU
mas afinal quem és tu de quem tanto falo e tanto canto aos quatro ventos?
tu és toda a gente e não és ninguém.
és a causa de tudo e afinal não causas nada.
tu és a coisa mais importante, mas também a mais insignificante.
preciso de ti incessantemente, mas também passo muito bem sem ti.
tu és tudo e não és nada.
eu amo-te, mas também te odeio.
afinal tu és eu...
tu és toda a gente e não és ninguém.
és a causa de tudo e afinal não causas nada.
tu és a coisa mais importante, mas também a mais insignificante.
preciso de ti incessantemente, mas também passo muito bem sem ti.
tu és tudo e não és nada.
eu amo-te, mas também te odeio.
afinal tu és eu...
o tempo não existe,
não é nada,
e não sabemos bem o que é...
mas sentimo-lo passar e damos conta dele passar.
ficamos mais velhos,
com mais rugas, mais cabelos brancos.
o corpo não permite as loucuras de antes,
já não aguenta tanto peso.
o tempo vai passando cada vez mais rápido...
ou assim nos parece.
somos tomados nos seus braços, sem podermos fugir,
enganá-lo ou fintá-lo.
o tempo vem e nós vamos com ele.
o tempo, que é tudo e não é nada,
faz-me vergar e enfraquecer
alucinar perante a vida.
o tempo, que é tudo e não é nada,
muda tudo.
faz nascer e mata,
traz uns e leva outros.
o tempo,
não se vê, mas sente-se.
não é nada,
e não sabemos bem o que é...
mas sentimo-lo passar e damos conta dele passar.
ficamos mais velhos,
com mais rugas, mais cabelos brancos.
o corpo não permite as loucuras de antes,
já não aguenta tanto peso.
o tempo vai passando cada vez mais rápido...
ou assim nos parece.
somos tomados nos seus braços, sem podermos fugir,
enganá-lo ou fintá-lo.
o tempo vem e nós vamos com ele.
o tempo, que é tudo e não é nada,
faz-me vergar e enfraquecer
alucinar perante a vida.
o tempo, que é tudo e não é nada,
muda tudo.
faz nascer e mata,
traz uns e leva outros.
o tempo,
não se vê, mas sente-se.
Wednesday, March 29, 2006
ao acordar senti-me estranho.
como se estivesse divido em vários,
senti-me fragmentado.
fragmentado e perdido.
algo me faltava,
algo não se encontrava em mim.
a minha alma, eu, dividida.
quantos sou eu?
quantos somos nós?
e sinto-me cansado.
todas as partes de mim,
todos os meus fragmentos, cansados e exaustos.
preciso da minha terra,
da minha casa,
da minha cama.
vou precisar de dias, talvez até anos ou séculos
para me livrar deste fardo.
quero fechar os olhos e cair num sono profundo,
como se voltasse ao início e nada mais importasse.
onde não carregasse este enfadonho cansaço,
onde não tivesse que acordar.
quero acordar e ser capaz de pensar,
respirar e observar o mundo,
as pessoas,
os sons..
.quero fazer tudo com paixão.
quero juntar todos os bocados de mim num só,
dormir e voltar a acordar apaixonadamente para o mundo.
quero pensar sem pesar,
amar sem dor,
viver sem cansar.
como se estivesse divido em vários,
senti-me fragmentado.
fragmentado e perdido.
algo me faltava,
algo não se encontrava em mim.
a minha alma, eu, dividida.
quantos sou eu?
quantos somos nós?
e sinto-me cansado.
todas as partes de mim,
todos os meus fragmentos, cansados e exaustos.
preciso da minha terra,
da minha casa,
da minha cama.
vou precisar de dias, talvez até anos ou séculos
para me livrar deste fardo.
quero fechar os olhos e cair num sono profundo,
como se voltasse ao início e nada mais importasse.
onde não carregasse este enfadonho cansaço,
onde não tivesse que acordar.
quero acordar e ser capaz de pensar,
respirar e observar o mundo,
as pessoas,
os sons..
.quero fazer tudo com paixão.
quero juntar todos os bocados de mim num só,
dormir e voltar a acordar apaixonadamente para o mundo.
quero pensar sem pesar,
amar sem dor,
viver sem cansar.
Monday, March 27, 2006
hoje fui à cidade. continuo perdido nas memórias vivas da cidade como se me tivesse lá perdido. lá, tudo se mexia, nada parava, nada estava quieto, nem por um segundo. os carros percorriam as longas estradas negras de alcatrão numa corrida frenética. correm, sem eu saber para onde, nem porquê. uma imensa multidão inunda as ruas e os passeios parecem muito pequenos para tal imensa multidão. parecem programados, programados para andar dum lado para o outro, sem parar. os seus rostos com uma expressão indefinida, como que perguntando-se a si mesmo para quê, porquê, para onde? não sei, as pessoas parecem não saber. à minha volta cercam-me montanhas cinzentas de betão e cimento. prédios, arranha-céus, tudo cinzento, tudo monocromático, parecem tocar o céu. parecem não ter fim...
e a noite cai...
a vida própria da cidade não se extingue, nem agora que a noite cai. acendem-se candeeiros e faróis. tudo parece pintado de luz. um misto de amarelo, laranja e branco parece colorir tudo à minha volta. e cegam-me estas luzes. os carros continuam a sua corrida frenética, não abrandam nunca. as pessoas continuam na rua e vão para todo o lado e para lado nenhum. a miséria sai à rua; uns quantos pedem esmola, outros, esfarrapados procuram um pedaço de cartão com que se tapar e um sítio mais sossegado que o da noite anterior para passar a noite. jovens desorientados aparecem e procuram no pecado mais uma noite de prazer fácil e pago. os prédios, antes cinzentões, são agora banhados por uma luz amarela, algo desoladora.
o céu por eles tocado é negro. está despido o meu céu.
não vejo sequer a estrela a que uma vez dera o teu nome.....
tenho saudades de casa. todos nos conhecemos e sabemos para onde vamos. a miséria não sai à rua e o pecado gratuito não existe. os carros não correm frenéticos para lado nenhum. o cinzento betão é aqui verde, verde das montanhas e da vegetação que tanto me alegra. as casas são pequenas e rasteiras, animadas, coloridas, interessantes.
quando a noite cai, não vejo aquele pálido e doentio amarelo. ilumina-me o caminho a luz calma e macia da lua cheia. e lá cima o meu céu é uma visão maravilhosa, quase inimaginável. está tão coberto de estrelas! e lá no meio de todo aquele emaranhado estrelado vejo-a. vejo-a inconfundível. a estrela a que uma vez dei o teu nome.
by
Ghost Reverie
e a noite cai...
a vida própria da cidade não se extingue, nem agora que a noite cai. acendem-se candeeiros e faróis. tudo parece pintado de luz. um misto de amarelo, laranja e branco parece colorir tudo à minha volta. e cegam-me estas luzes. os carros continuam a sua corrida frenética, não abrandam nunca. as pessoas continuam na rua e vão para todo o lado e para lado nenhum. a miséria sai à rua; uns quantos pedem esmola, outros, esfarrapados procuram um pedaço de cartão com que se tapar e um sítio mais sossegado que o da noite anterior para passar a noite. jovens desorientados aparecem e procuram no pecado mais uma noite de prazer fácil e pago. os prédios, antes cinzentões, são agora banhados por uma luz amarela, algo desoladora.
o céu por eles tocado é negro. está despido o meu céu.
não vejo sequer a estrela a que uma vez dera o teu nome.....
tenho saudades de casa. todos nos conhecemos e sabemos para onde vamos. a miséria não sai à rua e o pecado gratuito não existe. os carros não correm frenéticos para lado nenhum. o cinzento betão é aqui verde, verde das montanhas e da vegetação que tanto me alegra. as casas são pequenas e rasteiras, animadas, coloridas, interessantes.
quando a noite cai, não vejo aquele pálido e doentio amarelo. ilumina-me o caminho a luz calma e macia da lua cheia. e lá cima o meu céu é uma visão maravilhosa, quase inimaginável. está tão coberto de estrelas! e lá no meio de todo aquele emaranhado estrelado vejo-a. vejo-a inconfundível. a estrela a que uma vez dei o teu nome.
by
Ghost Reverie
Thursday, March 23, 2006
doem-me os olhos. não consigo sequer abri-los, como se nunca os tivesse usado antes. o corpo, mal o sinto. uma rigidez fria e crua petrifica os músculos do meu corpo. com as minhas mãos, consigo sentir que o meu corpo está apenas coberto por uma bata e um lençol.
finalmente abro os olhos, mas apresso-me a fechá-los. do tecto, sobre mim, incide nos meus olhos uma forte luz branca, imensa e ardente. quando sou capaz, abro finalmente os meus olhos.
tudo é branco. a minha bata, o lençol, as paredes, a luz.
estou deitado numa cama
com uma agulha espetada no meu braço. alimenta-me e dói-me.
o espaço não tem fim, o tempo é intemporal. a única noção de tempo que tenho é o monótono cair gota-a-gota do soro para o qual olho, meio maravilhado, meio confuso, meio a dormir.
tuda esta brancura enerva-me, irrita-me. é tudo imaculadamente branco e brilhante.
e eis que lá dentro, sinto um ardor. um ardor incontrolável. dor imensa, que me corrói, que me queima, que me consome.
a doença invadiu-me. deixou-me confinado a uma cama, a uma luz imaculada e a ser alimentado por um tubo.
o tempo é intemporal, o espaço infinito. estou doente e não quero estar. quero sair daqui. voltar para casa, para perto dos que amo.
o tempo é intemporal. não sei há quanto tempo aqui estou, quanto tempo vou ficar.
o espaço é infinito. não sei onde estou. sinto-me só e perdido.
tenho frio, tudo é branco. dói-me o buraco onde me espetaram.
fecho os olhos, adormeço e caio num sono profundo...
finalmente abro os olhos, mas apresso-me a fechá-los. do tecto, sobre mim, incide nos meus olhos uma forte luz branca, imensa e ardente. quando sou capaz, abro finalmente os meus olhos.
tudo é branco. a minha bata, o lençol, as paredes, a luz.
estou deitado numa cama
com uma agulha espetada no meu braço. alimenta-me e dói-me.
o espaço não tem fim, o tempo é intemporal. a única noção de tempo que tenho é o monótono cair gota-a-gota do soro para o qual olho, meio maravilhado, meio confuso, meio a dormir.
tuda esta brancura enerva-me, irrita-me. é tudo imaculadamente branco e brilhante.
e eis que lá dentro, sinto um ardor. um ardor incontrolável. dor imensa, que me corrói, que me queima, que me consome.
a doença invadiu-me. deixou-me confinado a uma cama, a uma luz imaculada e a ser alimentado por um tubo.
o tempo é intemporal, o espaço infinito. estou doente e não quero estar. quero sair daqui. voltar para casa, para perto dos que amo.
o tempo é intemporal. não sei há quanto tempo aqui estou, quanto tempo vou ficar.
o espaço é infinito. não sei onde estou. sinto-me só e perdido.
tenho frio, tudo é branco. dói-me o buraco onde me espetaram.
fecho os olhos, adormeço e caio num sono profundo...
Wednesday, March 22, 2006
pensamentos de morte.
a solidão invade-me,
a escuridão abraça-me.
agora estou exausto.
quero voltar ao início,
quando ainda não me doía pensar,
tudo era negro e quente.
quero voltar ao início,
quando eu não era nada, quando nada importava.
não me lembro de antes,
mas voltar ao início reconforta-me.
de volta ao início,
nada importa.
não faço nada, e nada me fazem.
quero estar quente, quero estar só e seguro.
quero dormir para sempre.
mas eis que acordo.
abrem-se-me lentamente os olhos.
invade-me e queima-me a claridade.
acordo, não voltei ao início.
agora ainda estou exausto.
acordei, no presente.
acordei para a realidade.
a solidão invade-me,
a escuridão abraça-me.
agora estou exausto.
quero voltar ao início,
quando ainda não me doía pensar,
tudo era negro e quente.
quero voltar ao início,
quando eu não era nada, quando nada importava.
não me lembro de antes,
mas voltar ao início reconforta-me.
de volta ao início,
nada importa.
não faço nada, e nada me fazem.
quero estar quente, quero estar só e seguro.
quero dormir para sempre.
mas eis que acordo.
abrem-se-me lentamente os olhos.
invade-me e queima-me a claridade.
acordo, não voltei ao início.
agora ainda estou exausto.
acordei, no presente.
acordei para a realidade.
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