Thursday, April 06, 2006

TU

mas afinal quem és tu de quem tanto falo e tanto canto aos quatro ventos?

tu és toda a gente e não és ninguém.
és a causa de tudo e afinal não causas nada.
tu és a coisa mais importante, mas também a mais insignificante.
preciso de ti incessantemente, mas também passo muito bem sem ti.
tu és tudo e não és nada.
eu amo-te, mas também te odeio.

afinal tu és eu...
o tempo não existe,
não é nada,
e não sabemos bem o que é...
mas sentimo-lo passar e damos conta dele passar.
ficamos mais velhos,
com mais rugas, mais cabelos brancos.
o corpo não permite as loucuras de antes,
já não aguenta tanto peso.
o tempo vai passando cada vez mais rápido...
ou assim nos parece.
somos tomados nos seus braços, sem podermos fugir,
enganá-lo ou fintá-lo.
o tempo vem e nós vamos com ele.
o tempo, que é tudo e não é nada,
faz-me vergar e enfraquecer
alucinar perante a vida.
o tempo, que é tudo e não é nada,
muda tudo.
faz nascer e mata,
traz uns e leva outros.
o tempo,
não se vê, mas sente-se.

Wednesday, March 29, 2006

ao acordar senti-me estranho.
como se estivesse divido em vários,
senti-me fragmentado.
fragmentado e perdido.
algo me faltava,
algo não se encontrava em mim.
a minha alma, eu, dividida.
quantos sou eu?
quantos somos nós?

e sinto-me cansado.
todas as partes de mim,
todos os meus fragmentos, cansados e exaustos.
preciso da minha terra,
da minha casa,
da minha cama.
vou precisar de dias, talvez até anos ou séculos
para me livrar deste fardo.
quero fechar os olhos e cair num sono profundo,
como se voltasse ao início e nada mais importasse.
onde não carregasse este enfadonho cansaço,
onde não tivesse que acordar.
quero acordar e ser capaz de pensar,
respirar e observar o mundo,
as pessoas,
os sons..
.quero fazer tudo com paixão.
quero juntar todos os bocados de mim num só,
dormir e voltar a acordar apaixonadamente para o mundo.
quero pensar sem pesar,
amar sem dor,
viver sem cansar.

Monday, March 27, 2006

hoje fui à cidade. continuo perdido nas memórias vivas da cidade como se me tivesse lá perdido. lá, tudo se mexia, nada parava, nada estava quieto, nem por um segundo. os carros percorriam as longas estradas negras de alcatrão numa corrida frenética. correm, sem eu saber para onde, nem porquê. uma imensa multidão inunda as ruas e os passeios parecem muito pequenos para tal imensa multidão. parecem programados, programados para andar dum lado para o outro, sem parar. os seus rostos com uma expressão indefinida, como que perguntando-se a si mesmo para quê, porquê, para onde? não sei, as pessoas parecem não saber. à minha volta cercam-me montanhas cinzentas de betão e cimento. prédios, arranha-céus, tudo cinzento, tudo monocromático, parecem tocar o céu. parecem não ter fim...

e a noite cai...

a vida própria da cidade não se extingue, nem agora que a noite cai. acendem-se candeeiros e faróis. tudo parece pintado de luz. um misto de amarelo, laranja e branco parece colorir tudo à minha volta. e cegam-me estas luzes. os carros continuam a sua corrida frenética, não abrandam nunca. as pessoas continuam na rua e vão para todo o lado e para lado nenhum. a miséria sai à rua; uns quantos pedem esmola, outros, esfarrapados procuram um pedaço de cartão com que se tapar e um sítio mais sossegado que o da noite anterior para passar a noite. jovens desorientados aparecem e procuram no pecado mais uma noite de prazer fácil e pago. os prédios, antes cinzentões, são agora banhados por uma luz amarela, algo desoladora.
o céu por eles tocado é negro. está despido o meu céu.
não vejo sequer a estrela a que uma vez dera o teu nome.....

tenho saudades de casa. todos nos conhecemos e sabemos para onde vamos. a miséria não sai à rua e o pecado gratuito não existe. os carros não correm frenéticos para lado nenhum. o cinzento betão é aqui verde, verde das montanhas e da vegetação que tanto me alegra. as casas são pequenas e rasteiras, animadas, coloridas, interessantes.
quando a noite cai, não vejo aquele pálido e doentio amarelo. ilumina-me o caminho a luz calma e macia da lua cheia. e lá cima o meu céu é uma visão maravilhosa, quase inimaginável. está tão coberto de estrelas! e lá no meio de todo aquele emaranhado estrelado vejo-a. vejo-a inconfundível. a estrela a que uma vez dei o teu nome.

by
Ghost Reverie

Thursday, March 23, 2006

doem-me os olhos. não consigo sequer abri-los, como se nunca os tivesse usado antes. o corpo, mal o sinto. uma rigidez fria e crua petrifica os músculos do meu corpo. com as minhas mãos, consigo sentir que o meu corpo está apenas coberto por uma bata e um lençol.
finalmente abro os olhos, mas apresso-me a fechá-los. do tecto, sobre mim, incide nos meus olhos uma forte luz branca, imensa e ardente. quando sou capaz, abro finalmente os meus olhos.
tudo é branco. a minha bata, o lençol, as paredes, a luz.
estou deitado numa cama
com uma agulha espetada no meu braço. alimenta-me e dói-me.
o espaço não tem fim, o tempo é intemporal. a única noção de tempo que tenho é o monótono cair gota-a-gota do soro para o qual olho, meio maravilhado, meio confuso, meio a dormir.
tuda esta brancura enerva-me, irrita-me. é tudo imaculadamente branco e brilhante.
e eis que lá dentro, sinto um ardor. um ardor incontrolável. dor imensa, que me corrói, que me queima, que me consome.
a doença invadiu-me. deixou-me confinado a uma cama, a uma luz imaculada e a ser alimentado por um tubo.
o tempo é intemporal, o espaço infinito. estou doente e não quero estar. quero sair daqui. voltar para casa, para perto dos que amo.
o tempo é intemporal. não sei há quanto tempo aqui estou, quanto tempo vou ficar.
o espaço é infinito. não sei onde estou. sinto-me só e perdido.
tenho frio, tudo é branco. dói-me o buraco onde me espetaram.
fecho os olhos, adormeço e caio num sono profundo...

Wednesday, March 22, 2006

pensamentos de morte.
a solidão invade-me,
a escuridão abraça-me.
agora estou exausto.
quero voltar ao início,
quando ainda não me doía pensar,
tudo era negro e quente.
quero voltar ao início,
quando eu não era nada, quando nada importava.
não me lembro de antes,
mas voltar ao início reconforta-me.
de volta ao início,
nada importa.
não faço nada, e nada me fazem.
quero estar quente, quero estar só e seguro.
quero dormir para sempre.


mas eis que acordo.
abrem-se-me lentamente os olhos.
invade-me e queima-me a claridade.
acordo, não voltei ao início.
agora ainda estou exausto.
acordei, no presente.
acordei para a realidade.
lá fora chove, está escuro e faz frio.
cá dentro chove, está escuro e faz frio.
dentro de mim, chove, está escuro e faz frio.
estar longe de ti, sem ti, é um tormento.
saber que não estás bem é uma doença para mim.
sofro, porque sofres também.
não é dor fingida de poeta.
é dor de quem ama, é dor de quem sente.
não poder ter-te a meu lado
é para mim uma dor infindável.
sinto a tua falta.
por isso é que cá dentro chove, está escuro e faz frio.
por isso é que dentro de mim, chove, está escuro e faz frio.

Sunday, March 19, 2006

voltei à idade dos porquês...

porque vivemos?
porque respiramos?
porque morremos?
porque comemos?
porque bebemos?
porque estudamos?
porque nos magoamos?
porque sorrimos?
porque choramos?
porque é que chove?
porque faz sol?
porque custa o tempo a passar?
porque é que há tempo?
porque é que sofremos?
porque sinto a tua falta?
porque é tudo tão cinzento quando não estás aqui?
porque me parece tudo tão triste sem ti?
porque é tudo tão estranho sem ti?
porque amamos?
porque te amo?
porque é que te quero?
porque não me amas?

exausto

sinto o corpo e cabeça pesados.
preciso de dormir.
e sinto que horas não sejam suficientes para curar este cansaço pestilento.
preciso de anos, talvez séculos para dormir.
custa-me andar,
custa-me levantar,
custa-me até pensar e mover os meus dedos para escrever.
não quero acordar nem me levantar.
quero apenas dormir descansar
livrar-me do peso da exaustão concentrado em mim.
irrito-me, canso-me, não durmo.
quero dormir por séculos,
não ter que acordar.
livrar-me do cansaço,
de preocupações e pensamentos.
descansar, relaxar, dormir.
é o que eu preciso.

Saturday, March 18, 2006

e escrevo. à luz do candeeiro do meu quarto escrevo.
escrevo enquanto a minha cabeça quente lateja com dor.
e o meu corpo treme e aquecido parece querer abrir fendas por todo o lado.
mas escrevo, escrevo a dor latejante que se espalha por mim,
me entope todos os poros do meu corpo,
se espalha por mim a uma velocidade doentiamente lenta.
esta dor latejante, parece rebentar a minha cabeça.
rangem os dentes, tremem os dedos e as pernas,
rebenta-me a cabeça.
e dependo eu daqueles remédios para me aliviar as dores,
levar-me para aquele mundo em que nada sinto,
a dor não existe e sou alma sem corpo.
a cabeça lateja e não consigo escrever mais.
hoje não, não hoje.
amanhã, depois, quando estiver curado...
e regressado do mundo indolor,
em que sou alma livre sem corpo.

Monday, March 13, 2006

E tudo nele era demência e insanidade...

e tudo nele era demência e insanidade. por todo o lado bradava ao mundo a sua loucura.
sons insanos e imagens loucas percorriam a sua mente. um copo de absinto trazia de volta os seus companheiros imaginários de longas bebedeiras e loucas orgias também. o fumo opiáceo atravessava-lhe a garganta e esmagava-lhe o cérebro. o absinto fazia-o arder por dentro e as alucinações eram constantes: vinham e iam, iam e vinham.
Loucura, Demência e Insanidade.
há muito tempo que aqueles companheiros ganharam lugar na sua vida, tal como o ópio e o absinto. aquelas drogas que o levavam na vida, mais leve, tão leve que quase voava. na sua mente, vozes e gemidos de dor e prazer ecoavam intensamente.
a noite fascinava-o. pecamos durante a noite porque ninguém vê, ninguém sabe, ninguém nos conhece. aquela escuridão tem o seu quê de confortável e seguro. e está sempre acompanhado por aqueles amigos de ópio e absinto.
a sua vida errante e incorrecta levava-o mais uma vez àquele antro de prazer carnal, onde em tantas noites conhecera tantas mulheres e nunca conhecera ninguém.
afinal, quando a demência e a loucura nos tomam nos seus braços, que somos nós? que podemos nós fazer? somos um corpo amorfo, docemente envenenado pelo pecado.
aqueles momentos intensos que nada o marcaram, eram apenas uma leve réstia de pensamento pecaminoso e carnal.
mulheres, ópio e absinto; não quer mais nada, não precisa de mais nada.
Para quê?
pecados cometidos e logo a seguir esquecidos. tomados na loucura da vida não interessa o que vamos fazer nem o que já fizemos.
tantas mulheres e tantos ninguéns, conhecidos num momento e esquecidos num outro. entregue ao prazer carnal, não interessa quem é a outra pessoa. é alguém, mais uma, que peca com ele.
Porque não? Que importa?
mulheres, numa noite, num dia; eram a sua loucura e perdição.
Absinto, Ópio, Mulheres; só precisa disto para viver, ter forças e continuar.
Ópio para a Demência, Absinto para a Insanidade.
Pecado, Demência, Insanidade, Loucura e Perdição são as regras da sua vida...


by
oge_retla

O tempo arrasta-se
Monocórdico
Monotóno
Melancólico.
E arrasta o meu corpo com ele.
Lentamente
Penosamente
De forma aborrecida e lenta.
O silêncio melancólico e imundo
Alastra-se e ocupa o meu corpo amorfo.
Arrasto-me para sobreviver
A esta melancolia que toma conta de mim.
E vozes monocórdicas ecoam na minha cabeça
Parecendo que vai rebentar a cada segundo que se arrasta.
Arrasta-se o meu corpo, pesado
No tempo melancólico.
A melancolia penosa
As vozes monocórdicas
O silêncio pesado...
Uma tortuda hedionda
Que me esmaga a cabeça
E são mil espinhos cravados na carne, na minha carne.
E eu arrasto o meu corpo,
De forma lenta e penosa.
Neste tempo intemporal,
Monocórdico
Monotóno
Melancólico.


by
oge_retla