Tuesday, February 07, 2006

no escuro do quarto

no escuro do quarto.
miles davis e john mclaughlin começam uma jam session fenomenal e intensa. os meus pés não param, acompanham inevitavelmente o ritmo contagiante da música. a música invadiu-me.
percebo agora porque lhe chamam a música do diabo.
a sala está impregnada com o cheiro doce do tabaco.
estou contagiado e não paro de pensar em ti, que inevitavelmente acabas por te materializar à minha frente. deslumbrante e ofuscante, o jazz é contagiante demais também para ti.
não resisto a juntar-me a ti e agarro-te gentilmente para que possamos dançar desenfreadamente. e só nós os dois enchemos aquela sala vazia e cheia com aquela música do diabo. estou possuído, tu estás possuída. o calor invade-me. o ritmo é intenso, os sons são imensos, a dança desenfreada.
não consigo parar, mesmo que os pés me doam. tu não consegues parar. não queremos parar. na verdade, não me importo de dançar até de manhã ao teu lado. e consigo ver pelo teu rosto que tu também não. a música possui-me intensamente. estou cheio com esta música, alimenta-me, preenche-me, invade-me.
e eis que a música acalma e nos aproximamos. mas só mesmo a música é que acalmou, porque o meu coração bate a mil a hora, capaz de rebentar ali mesmo. aquela aproximação acaba por se transformar num toque mútuo dos nossos corpos. a música continua a possuir-me e estar tão próximo de ti desperta um je ne sais quoi em mim, incontrolável. estar face a face contigo é algo que me preocupa, porque a vontade de te beijar aumenta com a intensidade da música.
repentinamente, as notas do saxofone sobem de tom e enchem novamente a sala. a guitarra, a bateria e o baixo juntam-se-lhes. não consigo parar. a sala está cheia de música e de sons e de nós. indescritível.
que se lixe, não tenho nada a perder. perco-me no doce e suavidade dos teus lábios e na intensidade musical. os nossos corpos juntos, a música, a dança, o ambiente intenso, tu! estou desconcertado e possuído.
caio na cama, exausto. por causa de um sonho bem real. uma música que ressoa na minha cabeça. uma dança que me deixou completamente arrebentado. um beijo que me deixou apaixonado e devastado.
no escuro do quarto, estive possuído, dancei, estive contigo, beijei-te, sonhei.
no escuro do quarto vivo.


by
Ghost Reverie

Sunday, February 05, 2006

vi


vi o apagar das chamas e o surgir das cinzas.
vi a flor secar e cair murcha.
vi o belo transformar-se em feio.
vi a luz tornar-se escuridão.
vi o declinar da vida e o impor da morte.
vi o simples e humilde ser deificado.
vi o amor acontecer.
vi o desabrochar duma flor.
vi o belo, vi o fantástico, vi o inagualável e o inimaginável.
vi-te a TI!
vivi, senti. chorei e sorri.
amei e odiei.

a minha vida, a vida de todos.






by
Ghost Reverie

Friday, January 27, 2006

e depois, o sul

o frio de janeiro, o inverno, preenche o vazio abismal dentro de mim.
cresce e enregela-me cada parte do meu corpo.
o frio é o meu sangue.
todos os dias, o caminho a percorrer é tão igual.
conheço tão bem os meus passos...
as pedras marcadas pelo tempo, pelos passos, pelas pessoas.
naquele dia frio, em que o frio do janeiro e o inverno, me preencheu o vazio em mim,
também tinha percorrido aquele caminho,
aquelas pedras marcadas pelo tempo.
conheço tão bem aqueles passos.
conheço tão bem este frio que me preenche,
este sentimento que não me aquece.
conheço bem os meus passos,
aquelas pedras marcadas pelo tempo e pelos passos e pelas pessoas.
naquele dia de frio de janeiro,
avancei, na escuridão que parecia não ter fim,
e dentro de mim, tudo, o medo, esperava por algo que sabia que ia acontecer.
os passos que eu conhecia tão bem fizeram-me avançar.
peguei naquele objecto imóvel, que tantas vezes perigoso, agora me fascinava.
o frio de janeiro e do inverno era intenso e enregelava aquele objecto.
peguei nele e tremia, não sei se do frio se do medo.
o medo olhava de dentro de mim através do transparente dos meus olhos.
peguei no objecto imóvel, escolhi uma bala e carreguei-o.
naquele momento nada mais existia.
as paredes da casa, as janelas,
as pedras marcadas pelo tempo, pelos passos, pelas pessoas, as pessoas.
a vida.
apenas eu e a escuridão que me envolvia em mais escuridão.
e eu ali, nu, impotente contra o frio de janeiro e do inverno.
levei a arma à boca e o seu frio fez-se sentir,
o seu gosto a metal inundou a minha boca, os meus dedos trémulos e frios agarravam o gatilho.
quando apertei o gatilho, o lábio ardeu e senti-lhe o sabor, mas já não interessava.
a bala tinha atravessado todo o seu caminho,
um caminho que conhecia tão bem.
e eu caí, inerte e frio, morto.
o meu corpo virado para sul.
o sangue da minha cabeça agora desfeita brilhava na escuridão.
e depois disso, nada interessava.
o medo, que se preparara para algo que sabia ir acontecer, desaparecera.
o frio de janeiro, do inverno, perdia-se em mais frio daquele dia.
as pedras continuavam lá, as pedras que eu conhecia tão bem,
pedras marcadas pelo tempo, pelos passos, pelas pessoas.
e eu, caminhava um novo caminho,
um caminho que conhecia bem,
caminhava para sul.



by
Ghost Reverie

Tuesday, January 24, 2006

saudades

para quem não sabe, foram os portugueses que inventaram esta palavra. e arrisco-me mesmo a dizer que inventaram este sentimento. é que não conheço povo tão saudoso como nós.
e é claro, eu, como bom português que sou, sou extremamente saudoso.
tenho saudades de vós, mas especialmente de ti.
tu que me fazes sonhar
tu que me inspiras
tu que me dás vida por dentro.
sinto especialmente saudades de ti.
não me perguntes porquê. mas sinto.

olho para o espelho e pergunto-me se serei mesmo eu, a pessoa que não acreditava em sentimentos, saudades...
serei mesmo eu que me vejo reflectido no espelho?
é que a culpa é tua! tu foste (e és) o vento da mudança que soprou em mim.

e verdade seja dita: bendita a hora em que o fizeste.

sim sinto saudades de ti.


by
Ghost Reverie

Thursday, January 19, 2006

je ne sais quoi...

será que a minha vida nunca terá um dia normal?
será que nunca vou controlar os meus sentimentos?
porque é que quando eu menos quero me vêm à cabeça os sons, as imagens, os sabores, os aromas (de ti).
e eu que há muito prometi a mim mesmo ser de pedra, não voltar a cair em merdas romanescas, com muita sensibilidade...e eis que caio no mesmo remoinho de sentimentos, o mesmo abismo sem fundo de recordações...
a merda da vontade de sentir intensamente (amar?) há-de sempre voltar. e a culpa é minha, porque desastrado como sou, tropeço sempre em alguém que desperta em mim um je ne sais quoi... pareço votado ao sentimento, ao romantismo. até ao saudosismo imagine-se!
coisas há muito reprovadas e desaprovadas por mim e por outros.
mas há de vir sempre alguém mudar o curso da minha vida...
e sabem que mais?
tenho que seguir com a vida em frente.
(até porque tal alguém pode nem se vir a concretizar.)
é que além de romântico, sentimentalista também tenho que ser (e sou) realista.

mas além de realista gosto de sonhar!
e o que são os sonhos?
sem ti, não são mais que algo
aborrecido, a preto e branco...
contigo
a alegria jorra de dentro de mim,
é colorido e interessante...
mas infelizmente é isso mesmo,
a merda de um sonho
não a realidade.
mas somos feitos de sonhos
e os sonhos fazem-nos a nós.

mas a vida continua não é?
e eu sempre com um sorriso nos lábios.


by
Ghost Reverie

Sunday, January 15, 2006

it's all about it isn't it...?all about dreams...

costumo imaginar, ou pelo menos tentar imaginar coisas. de fundo, a música de yann tiersen dá lugar faz-me criar as mais vastas e variadas imaginações. de olhos fechados, rapidamente a escuridão dá lugar à luz forte e imensa dum candelabro magistral e brilhante que ilumina, imponentemente, toda a sala. sala repleta de pessoas, pessoas que dançam e parecem flutuar, brilhantes, ao som da música. eu sou excepção. apenas porque aguardo, em aparente paz, mas verdadeiramente impaciente, a tua chegada.
minutos parecem infindáveis horas à tua espera. a música consume-me e fico cada vez mais impaciente.
mas eis que chegas. como que uma visão, pareces flutuar, ofuscando tudo à tua passagem. nem posso acreditar que estás ali para estar comigo. avanço até ti e caímos nos braços um do outro começando a dançar.
tal coisa parece um sonho. parece que flutuo, aliás, voo a teu lado. somos inagualáveis.
mas sim, é mesmo uma visão. apenas me apercebo disso quando a música acaba e sou forçado a regressar à terra. tal dança, tal candelabro, tais pessoas, não existem.
resta-me o consolo de saber que TU és real, tal como o meu sentimento.

mas a minha imaginação, os meus sonhos, as minhas visões não têm limites. e gosto de sonhar, imaginar...ou pelo menos tentar...


by
Ghost Reverie

Friday, January 13, 2006

por quem os sinos dobram?

chegaram os frios de Janeiro
os dias cinzentos...
frios...
nublados.
coisas estranhas
(até mesmo bizarras)
vêm-me à cabeça...
obscuro,
a morte.
dias tristes
malditos e frios.
ouve-se ao longe
o dobrar dos sinos.
por quem os sinos dobram?
ressoa os som dos sinos
cada badalada é um baque profundo
e prolongado
na minha cabeça.
pesa em mim o pensamento cruel e mortal
por quem os sinos dobram?
arrepiantes
obscuros e anormais até.
as badaladas contínuas
como que anunciando a presença da morte...
por quem os sinos dobram?

Wednesday, January 11, 2006

"E eu sonho a Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados"

Cesário Verde - Noite Fechada



Já Cesário Verde no século XIX identificava a preguiçosa, doentia e enjoativa estagnação...

VIVAM!

by
Ghost Reverie

Quando o céu baixo e espesso


"Quando o céu baixo e espesso pesa como uma tampa
Sobre o espírito que geme preso pelo tédio,
E que do horizonte, a toda a volta,
Surge um dia mais negro do que a noite.

Quando a terra se transformou em masmorra húmida
Onde a esperança, como um morcego,
Se afasta roçando nas paredes as asas tímidas
E batendo com a cabeça nos tectos apodrecidos.

Quando a chuva, estendendo a imensa cauda
Duma vasta prisão imita as grades,
E uma multidão muda de infames aranhas
Vem estender os seus fios nos nossos cérebros.

Os sinos, de repente, explodem furiosos
E lançam para o céu um terrível urro,
Tal como os espíritos errantes e sem pátria
Que gemem incessantemente.

E longos funerais, sem tambor nem música,
Desfilam lentamente na minha alma; a Esperança
Vencida, chora e a Angústia atroz, déspota,
Sobre a minha cabeça inclinada, crava a bandeira negra."

Baudelaire, " Les fleurs du mal"

Monday, January 09, 2006

a vida

sinto,
quero,
desejo.
em quantidades demasiadas, até à embriaguez.
vivo embraguiado pela minha vida, obcecado com algo (ou alguém). quero fazer do meu passado presente e das minhas memórias verdades. sinto demais, por certo, desejo demais, obviamente.
mas a vida é para ser vivida. nas trevas ou na luz, a vida tem que ser vivida! no limite, correndo riscos, vivendo. não faz sentido ser mais um ser comandado pelas massas, agindo e pensando como tantos milhões de pessoas. como já disse, não devemos apenas existir, mas sim VIVER! pois, porque senão qualquer dia quando dermos por ela já chegou a nossa hora e temos que ir (para onde quer que vamos).
acho que é um pensamento vezes sem conta pensado e repensado, escrito e reescrito. e não só por mim, por todos. todos já pensaram nisto.
embriaguez pela vida, desejo, sentimentos, são coisas inatas, fazem parte de nós. embriaguemo-nos com a vida.
com os nossos desejos.
com os nossos sentimentos.
com as nossas memórias.
o tempo passa. viva-se a vida, aproveitem-se os minutos e segundos.
quando dermos conta...o nosso tempo já se foi.

Friday, January 06, 2006

anti arte


jolifanto bambla ô falli bambla
grossifa m'pfah habla horem
égiga gorramen
higo bloiko russula hujuh
hullaka hullalla
anlogo bang
blago bung
blago bung
bosso fataka
ü üü ü
schampa wulla wussa ólobo
hej tatta gôrem
eschige zunbada
wulubu ssubudu uluw ssubudu
tumba ba-umf
kusagauma
ba-umf

Karawane - Hugo Ball


confusão, surrealidade, sons (muitos)...
a minha mente, a minha cabeça, a minha maneira de pensar? sim...talvez...às vezes.
mas acontece com todos não é?
é untrve e intragável, mas às vezes é assim mesmo que a vida se nos apresenta.
temos que nos agitar, revoltar e viver e não apenas existir.

by
Ghost Reverie

há dias que catano...

há com cada coisa! não entendo como foi aparecer em mim tal sentimento, tão forte. e pôs-me sensivel. eu que me julgava algo insensível (admito), sou neste momento alguém sensível, saudoso, muito saudoso. e cheio de vontade de viver, procurar o impossivel, alcançar o inalcançável. e tudo começou com uma brincadeira dum amigo...que se veio a tornar realidade e sofrer uma metamorfose, metamorfando-se em algo forte e estranho até. e já cometi loucuras à custa disso. não me arrependo, porque quem é louco é que vive a vida. e valeu a pena. consegui o que queria e ainda quero consegui-lo outra vez.
e outra vez.
e outra vez.
e outra vez.
e outro milhão de vezes.
pois, riem-se uns e choram outros, mas uma pessoa sensível assim sofre. é chato... é f*****. mas enfim, tenho que aguentar. e ir recordando momentos. porque o doce das memórias é poder recordá-las (como muito sabiamente alguém me disse uma vez). e posso sempre refugiar-me nelas e tentar aliviar tanto saudosismo. isto já é típico de ser português, somos tão saudosos... mas até pode ser bom, ao menos sabemos que o sentimento anda por aí. é estranho. mas também não quero que isto desapareça.
e assim vai vivendo uma pessoa, muito saudosa, (agora até) sensivel, saudosa, sentimentalista. um novo eu enfim. eheh



by
Ghost Reveries